OS LIVROS QUE ME SALVARAM
- redacaopautalocal
- 24 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 24 de ago. de 2025
Por Susana Barros*
O que narro a seguir provavelmente só interessa às minhas tias e à uma amiga formada em letras. E, no entanto, é o que os espíritos amigos que me acompanham sugeriram e quem escreve sabe que quando não se dá ouvidos ao que eles pedem se finda com gastrite, prisão de ventre e doença na cabeça.
Por isso conto agora sobre os livros que me salvaram, e que talvez nem sejam os que mais tenha gostado, se quando me deparei com alguns eu nem sabia ler. Este é o caso dos de Monteiro Lobato, os quais aos seis anos de idade somente folheava para ver as ilustrações. Subia num pé de mangueira e com os livros apoiados nas coxas observava o pôr-do-sol a fim de aplacar uma angústia vinda de outras encarnações.
Já na adolescência, foram os romances de Rosamunde Pilcher que me ajudaram. Eu era interna num colégio de carolas onde tinha hora pra dormir e acordar, cama pra arrumar, mesa pra servir e tabela periódica pra decorar. No momento em que as luzes se apagavam, corria com os livros da autora de “Os Catadores de Conchas” para o banheiro e lia-os às escondidas como forma de satisfazer minha rebeldia.
Aos vinte e poucos anos, inventei de ir morar sozinha num país em que, se não chovia, neblinava. E então foi a vez de Harry Potter e seus amigos me aquecerem, me tirarem da solidão e me ensinarem como ler numa nova língua.

Quando retornei ao Brasil mais perdida do que parti, um psicólogo me indicou "As Brumas de Avalon", fantasia escrita por Marion Zimmer Bradley que reinterpreta a lenda do Rei Arthur sob a perspectiva das mulheres. A obra, normalmente lida por adolescentes, foi sugerida pois o profissional sabia que já havia passado da hora de eu aprender a lidar com o feminino que habita em mim.
Na casa dos trinta, Clarice Lispector e Gabriel Garcia Marques me induziram a vomitar palavras num papel. “A paixão segundo G. H.” e “Cem anos de solidão” não somente me livraram de uma vida insossa, mas também me deram um propósito.
Mais recentemente, “A Casa do Espíritos”, de Isabel Allende, me tirou daquela leve tristeza que costuma aparecer num pós-parto. O livro havia sido doado para o bazar da igreja para a qual meu companheiro presta serviço. Como o pessoal da paróquia ia jogar o volume no lixo, meu marido resolveu trazer para mim.
A obra, que tem como um dos fios condutores a história de Clara, uma mulher com habilidades de se comunicar com espíritos e prever o futuro, estava em excelente estado, não havia um rabisco sequer. E eu não sei se foi por conta dos hormônios do puerpério, mas demorei um tempo enorme para entender que o livro seria jogado no lixo porque hoje em dia não se faz mais fogueira.

Susana Barros é macauense, graduada em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo. Autora do livro “O Sucessor do Rei”, Susana é jornalista, quando empregada; e escritora, quando corajosa.
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