Entre o amor e tiros: cartas de Mãe Luiza*
- redacaopautalocal
- 16 de nov. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2025

Vista panorâmica da Avenida Guanabara, em Mãe Luiza no provável início da década de 1980. FOTO: Mário Maia/ARQUIVO
Olá, São Gonçalo.
Escrevo de Mãe Luiza, não como jornalista, mas como moradora. Como mãe e, sobretudo, como alguém que escolheu viver aqui.
Há cerca de quatro anos, me rendi às coisas do coração e vim morar na favela. Não sabia distinguir fogos de artifício de tiros. Duas semanas depois, já reconhecia a diferença entre “teste” e “é pra valer”. Ainda assim, resolvi ficar.
Não vivo em vulnerabilidade extrema. Tenho o privilégio de uma casa estável. Mas, apesar dessa relativa estabilidade, temo. Na última quinta-feira, um tiroteio ocorreu em frente à creche da minha filha, enquanto as pessoas compravam pão para o jantar. Neste momento, enquanto escrevo, escuto tiros e vejo machucados passando em frente à minha casa. São dez horas de um domingo. Por aqui, já não há horário nem local seguro.
O que se vive hoje é uma tentativa de tomada de território por faccionados que se dizem do Comando Vermelho. Esses faccionados seriam dissidentes do Sindicato do Crime — que domina a área. Quando não é a facção, sobe a polícia — tão armada e encapuzada quanto é possível estar. Mãe Luiza vive entre dois fogos. Literalmente.
Não é de hoje. E não há previsão de paz. Pelo contrário, a tendência é que a situação se agrave nos próximos dias. As crianças não estão indo à escola, e há um velado toque de recolher nas ruas. O que me lembra de te alertar: fique longe daqui. Evite bares abertos. Não saia tarde da noite.
Para nós, moradores, não é um “mais do mesmo”. É pior. Um vizinho resume: “As pessoas estão reféns. Estamos com medo de sair na rua. De um lado, são as facções em guerra; do outro, os policiais sobem com armamento pesado. Ninguém se sente seguro.”
Outra moradora me disse: “Antes, não precisávamos trancar as portas de casa, nem à noite. Agora, a qualquer momento, a minha casa pode ser invadida.”
Mas lembro, por fim: Mãe Luiza não é só isso. O bairro pulsa cultura, economia criativa e cordialidade — e merece ser reconhecido por sua força, não por seus conflitos.
Esta carta é um pedido de atenção. Um chamado à empatia. Que a paz volte a morar aqui. Que o amor vença os tiros.
Com esperança,
Uma moradora de Mãe Luiza.
*Fundado em 1958, Mãe Luiza é um bairro popular localizado na zona leste de Natal (RN), conhecido por sua história de resistência, cultura e desafios sociais.
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